"Quem conta histórias pode sobrepor muitas camadas de imaginário e real pois sabe que os limites são tênues." (Lya Luft)

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Ressentimento


“...ressentir-se significa atribuir a um outro a responsabilidade pelo que nos faz sofrer. Um outro a quem delegamos, em um momento anterior, o poder de decidir por nós, de modo a poder culpá-lo do que venha a fracassar”. (Maria Rita Kehl)


            Depois que Maria Rita Kehl nos presenteou com suas elaborações acerca do ressentimento na contemporaneidade confesso que qualquer sentimento de vítima diretamente me lança as suas palavras.

            Quero dividir um pouco da leitura que fiz deste livro com vocês...

            Primeira coisa que pensei quando peguei o livro: Será que estou ressentida com algo ou seria eu estruturalmente ressentida? Como muitos colegas que tem como hábito indagar-se a respeito de suas escolhas.

            Segunda coisa: Se eu quero saber sobre ressentimento preciso fazer as pazes com a autora, afinal algo em mim sempre resistia quando acompanhado do título vinha Maria Rita Kehl.

            Ok, me aventurei sem respostas a nenhuma das questões acima, mas tentando responde-las ao longo da leitura.

Vítima e covardia são palavras que você vai aprender, seja no sentido semântico ou metafórico, além disso, sempre que te surgir um pensamento assim: Não é culpa minha e tomara que fulano se foda você logo irá se pensar covarde, ressentido. Por que assim, em resumo o ressentido é aquele que diz assim: Estou nesta situação porque não me deram lugar, fala, etc, agora me remôo na busca vingança!

            Até aí tudo bem, Édipo querendo matar mamãe, mas calma, senão não estaríamos utilizando outro conceito, a questão é que no ressentimento a vingança é passiva, não tem grito, não tem ato, é do tipo: Que o Diabo te carregue, enquanto na intimidade do vingar-se sem ato (pra fora) a vingança é única e exclusiva da vítima sobre ela mesma e muito possivelmente o objeto de tamanha dor ressentida nada sabe de tamanha importância que tem nas elucubrações imaginárias do ressentido.

            Não fui eu, a culpa é do Outro, mas isto não seria conceito de recalque, também, acontece que no ressentimento o recalque leva pra impotência e a espera (as vezes de uma vida inteira) por vingança, que nunca vem, a depressão seria um sintoma ressentido, por exemplo, diferente de um recalque que questiona a culpa do Outro.

            Maria Rita também analisa o ressentimento na estruturação da sociedade brasileira, a mesma fala do nosso folder estrangeiro, das tais aparências carnavalescas, caipiroscas e felizes que vendemos ao turista, uma espécie de apagamento que vivemos construímos a respeito da nossa história, ou seja, omo se não tivéssemos passado por regimes militares, escravidão, se dinheiro na cueca fosse fantasia de carnaval, etc.

Kehl finaliza tencionando a identidade brasileira como ressentida, de vítimas que esperam por reparação em uma boa rodada de caipirinhas, um país sem memórias, fantoche da felicidade estrangeira, tipo: Um assaltado, falido, mas com churrasco no final de semana. (O churrasco é uma meia reparação, a qual parece ter sido vista pelos fantoches com dinheiro nas cuecas).

Fico a pensar nas camuflagens diabólicas ressentidas que devem me fazer companhia cotidianamente, ufa o ressentimento é impotente e nada vem questionar, ufa, to livre de acusações públicas, mas cuidado que ressentimento não é estrutura ele se estrutura em alguma estrutura vai saber se não tem nenhum ressentido paranóico por aí perto, bom daí o título do livro seria outro e bem que poderia vir acompanhado num por Maria Rita Kehl, boas pazes estas, vamos as mínimas diferenças agora, mas sem ressentimento por favor!

As vítimas injustiçadas do meu coração, uma boa indicação de leitura para as férias!

Nenhum comentário:

Postar um comentário